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Open banking e o fim do produto bancário

O ecossistema de open banking brasileiro está crescendo antes mesmo de a nova regulamentação entrar em vigor. O Banco Central avisou em outubro que está estudando o lançamento de regras para a modalidade em 2019, mas as instituições financeiras já entenderam que o futuro será diferente. Assim, estão se preparando para essa nova fase, em que os clientes terão maior poder de decisão sobre suas contas bancárias.

O open banking pressupõe o compartilhamento de informações dos clientes com outras empresas, se eles desejarem – fintechs de concessão de crédito, por exemplo. Vão desde dados pessoais, de cartão de crédito, saldo da conta corrente até investimentos, que até agora pertenciam exclusivamente aos bancos. As empresas já estão se adiantando às regras do BC, mas só isso não será suficiente.

Para Davi Cunha, líder de estratégia de open banking da IBM no Brasil, as instituições financeiras precisarão ir além para sobreviver nesse novo mercado, muito mais dinâmico. Segundo Cunha, o cliente não está mais interessado no produto, mas na experiência. Com um smartphone, ele acessa sua conta a qualquer momento do dia, fazendo pagamentos e transferências muitas vezes sem passar pelo banco. Agora, é preciso criar serviços personalizados que atendam necessidades específicas e que melhorem a jornada do cliente.


Formando parcerias

Segundo levantamento da Fintechlab, o primeiro semestre de 2018 fechou com um total de 453 fintechs brasileiras, representando um aumento de 23% em relação ao final do ano anterior. Uma vez que elas não se enquadram na legislação dos bancos, podem oferecer serviços que as instituições financeiras não conseguem. Por exemplo, as fintechs podem oferecer crédito para a população desbancarizada, que soma 60 milhões de pessoas. Por meio de uma parceria com essas empresas, os bancos agora podem atender esse cliente, oferecendo soluções que condizem com suas necessidades reais.

Essa cooperação é mutualmente benéfica, uma vez que a marca da instituição financeira tradicional é mais confiada pelo cliente, que já a conhece e ainda tem relutância em migrar para as empresas de tecnologia. As agências, apesar da tendência de serem reduzidas, ainda atingem uma parcela significativa da população e servem como mais um canal de distribuição para a fintech.

Especialmente no caso brasileiro, a população ainda é dividida entre o mundo digital e o mundo físico. Por isso, os canais de distribuição locais ainda serão necessários no longo prazo. “A agência bancária pode mudar seu modelo e se tornar um canal de experimentação, por exemplo”, diz Pedro Romero, diretor de Novos Negócios da Conta Azul. A startup é uma plataforma de gestão financeira para pequenas e médias empresas, conectando diversos serviços. Também foi uma das pioneiras em open banking no Brasil, ao formar uma parceria com o Banco do Brasil em 2017. Para ilustrar, a mesma instituição já afirmou estar planejando transformar os locais em espaços de co-working, com mesas e wi-fi disponíveis para os clientes.

As empresas tradicionais que estão diante do desafio de construir estruturas, experiências e produtos que atendam às demandas atuais devem, portanto, abraçar as parcerias. Esse é o caminho para que, futuramente, as companhias adotem um modelo de negócio que potencializa o atendimento ao cliente: a plataforma. “Ela não necessariamente entrega produtos, mas atua como facilitadora, entregando serviço e a marca”, explica Cunha. Duas empresas que nasceram como plataformas e que os brasileiros já se acostumaram a usar são Uber e Airbnb. Nos dois casos, a proposta é conectar fornecedores, de carros ou imóveis, aos clientes que desejam alugar aquele produto ou serviço. Por não serem donas dos ativos, o modelo de negócio é escalável.

A transformação para o modelo de plataforma não é um processo rápido, nem barato. Por isso, as empresas que não possuem recursos para criar as suas próprias podem se unir àquelas já existentes, tornando-se parceiras delas ou fornecedoras de serviços e experiência. De uma forma ou de outra, estarão integradas ao ecossistema de inovação ao lado de empresas, fintechs e startups.

O open banking se dá principalmente através da utilização de APIs (Application Programming Interface ou Interfaces Programáveis de Aplicativos), sistemas de acesso digital que permitem a integração de softwares e serviços, responsáveis pelas conexões das plataformas dos bancos com as fintechs. As empresas ainda podem ir além e utilizar APIs de terceiros para melhorar seus processos internos e produtos. Elas também podem disponibilizar as suas próprias ferramentas ao mercado, monetizando-as e gerando uma receita sobre uma API que a empresa já utilizava internamente. Esse é mais um modelo de negócio que será impulsionado pelo desenvolvimento do ecossistema de open banking.


Open banking 2.0

Para Cunha, no entanto, a cereja do bolo para o futuro das instituições financeiras é o uso inteligente dos dados dos clientes. São essas informações que gerarão conhecimento sobre os usuários, possibilitando a criação de produtos personalizados e baseados nas realidades e necessidades das pessoas – em vez de produtos que apenas interessam às empresas.

Com isso concorda Romero, apontando para uma segunda fase pela qual o movimento de open banking está passando. Se na primeira a preocupação era viabilizar a abertura de dados dos clientes, agora o grande diferencial está com as empresas que entenderam o poder dessas informações. É o que Romero chamou de Open Banking 2.0: os bancos, além de tratar dados, agora também os utilizarão para compreender a demanda e criar novos serviços e produtos.

Os bancos que já saíram na frente na corrida do open banking tem pouco com o que se preocupar com a regulamentação do Banco Central. A autoridade irá, inicialmente, estabelecer regras de padronização para os dados que serão compartilhados. Aqueles que já entraram na onda, terão que fazer apenas alguns ajustes. No entanto, as instituições que ainda nem começaram a pensar no tema, precisam começar a se mexer, e para ontem.

O primeiro passo é construir a arquitetura necessária para o cliente poder liberar ou bloquear o compartilhamento de dados e garantir a portabilidade da conta. Depois, é necessário automatizar o processo interno do banco através da digitalização de tarefas cotidianas, e oferecer uma experiência melhor no aplicativo. O quanto antes as instituições financeiras estiverem preparadas para o processo de open banking, mais facilmente conseguirão se estabelecer no mercado digitalizado.

Essas discussões estiveram no debate “Open Banking e oportunidades de negócios junto às fintechs”, organizado pelo GR1D e que fez parte da programação da São Paulo Tech Week, festival de tecnologia e inovação realizado no final de novembro de 2018.